
Após mais de um mês de internação na Unidade de Terapia Intensiva (UTI), o jovem Ruan Lincoln Nunes, de 25 anos, está em processo de recuperação e se prepara para retornar para casa. O paciente chegou ao Hospital Regional Dr. Abelardo Santos (HRAS), em Icoaraci, distrito de Belém, no dia 9 de maio, transferido de Marabá após receber diagnóstico de dengue grave (popularmente conhecida como dengue hemorrágica) e desenvolver complicações relacionadas à doença. Ruan foi internado justamente no dia em que prestaria o Exame da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), interrompendo temporariamente o sonho de se tornar advogado.
Segundo o médico intensivista Ênio Cativo, após ser diagnosticado com dengue grave, Ruan evoluiu com uma série de complicações graves, incluindo hemorragia abdominal, pancreatite necro-hemorrágica, insuficiência respiratória, infecção secundária e choque circulatório.
Ao chegar ao HRAS, o paciente estava em estado crítico e precisou de cuidados intensivos contínuos. De acordo com Ênio, a gravidade do caso exigiu uma atuação integrada de diferentes especialidades desde os primeiros dias de internação.
“Além da dengue grave, ele apresentou um importante sangramento abdominal associado à pancreatite necro-hemorrágica. Foi um quadro extremamente complexo, com múltiplas complicações ocorrendo simultaneamente”, explicou o médico.
Ao chegar ao hospital, Ruan também apresentava sinais de sepse, resposta inadequada do organismo a um processo inflamatorio-infeccioso. Diante do quadro, a equipe multiprofissional iniciou medidas de suporte intensivo, incluindo a adequação do tratamento com antibióticos e a avaliação cirúrgica.
Durante a internação, o paciente precisou ser submetido a uma cirurgia abdominal para identificação e controle do sangramento. No procedimento, conduzido pelo cirurgião Jean Karlos Brasil, a equipe encontrou grande volume de sangue e coágulos na cavidade abdominal, que precisaram ser removidos.
Para a realização da cirurgia, Ruan foi submetido à intubação e passou a receber ventilação mecânica. Devido à gravidade do quadro clínico, foi necessário manter o paciente sob sedação profunda e suporte ventilatório no período pós-operatório. Durante a internação, ele também precisou receber transfusões de sangue para auxiliar na estabilização do quadro.
Nos dias seguintes, Ruan apresentou piora clínica, evoluindo com insuficiência respiratória grave e parada cardiorrespiratória associada à redução dos níveis de oxigenação. Após manobras de reanimação, a equipe conseguiu restabelecer a circulação e dar continuidade ao tratamento intensivo.
Ao longo da permanência na UTI, o paciente desenvolveu uma infecção pulmonar, o que exigiu novos ajustes terapêuticos. Além do suporte nutricional especializado, ele foi acompanhado diariamente por equipes médicas, de enfermagem, fisioterapia, fonoaudiologia, nutrição, psicologia e serviço social. A construção da estratégia terapêutica contou ainda com a participação da coordenadora da equipe médica da UTI Adulto, Lorena Salomão.
Após aproximadamente duas semanas de intubação, foi realizada uma traqueostomia para facilitar o processo de retirada gradual da ventilação mecânica. A partir desse momento, Ruan passou a apresentar melhora progressiva, com recuperação da função respiratória, controle dos processos infecciosos e retomada gradual da alimentação pelo trato digestivo.
“O quadro era muito grave, pois havia diversas complicações associadas. Conseguimos identificar os focos infecciosos, ajustar os tratamentos necessários e acompanhar a evolução clínica ao longo das semanas. Ele é um guerreiro”, destacou Ênio Cativo.
O médico também ressaltou a importância da resposta ao tratamento, do apoio familiar durante a recuperação e das doações de sangue para o desfecho favorável do caso. “Foi uma recuperação construída dia após dia. Houve momentos de extrema gravidade, mas a resposta ao tratamento e a participação da família foram fundamentais para a evolução do paciente. As doações de sangue também tiveram papel importante, pois possibilitaram as transfusões necessárias durante o tratamento”, afirmou.
Recuperação gradual
Devido à pancreatite, Ruan permaneceu cerca de três semanas recebendo alimentação por meio de nutrientes administrados diretamente na corrente sanguínea. Com a recuperação do quadro abdominal, os profissionais iniciaram gradualmente a alimentação pelo sistema digestivo até que ele pudesse voltar a se alimentar normalmente pela boca.
Ruan já se alimenta normalmente, teve retirados os acessos utilizados durante o tratamento e não precisa mais da cânula instalada na traqueia para auxiliar a respiração. Também está em recuperação avançada, respirando sem auxílio de ventilação mecânica. Atualmente, o paciente encontra-se na enfermaria, onde segue recebendo os cuidados necessários até a alta hospitalar.
A coordenadora de Enfermagem da UTI Adulto do HRAS, enfermeira Samara Silva, destaca que a recuperação de pacientes em estado crítico depende da atuação integrada de diferentes profissionais. Com 40 leitos e média mensal de aproximadamente 154 internações em 2026, a unidade conta com equipe multiprofissional que atua de forma articulada para garantir assistência especializada, monitoramento contínuo e cuidados individualizados.
“A recuperação de pacientes críticos é resultado de um trabalho integrado entre diferentes profissionais. Além da assistência especializada, buscamos envolver a família no processo de cuidado, pois essa parceria contribui para a segurança do paciente, a adesão ao tratamento e melhores desfechos clínicos”, afirma Samara Silva.
Carinho e planos para o futuro
Durante todo o período de internação, Ruan contou com o apoio constante da família. Segundo Enio Cativo, os pais estiveram presentes diariamente, acompanhando a evolução do tratamento e oferecendo suporte ao filho.
Aliviada, a mãe de Ruan, Marinalva Souza, conta que a notícia da recuperação foi recebida com gratidão após semanas de apreensão. Segundo ela, a confiança na equipe assistencial e o apoio familiar foram fundamentais durante o período de internação. Entre os planos para o futuro está a retomada dos projetos interrompidos pela doença.
“Desde o início, confiamos em Deus e no trabalho da equipe, que foi incansável. Hoje, o nosso maior desejo é que ele recupere a sua vida e retome os planos que precisaram ser interrompidos. Meu filho vai ser advogado”, comemora a mãe.
Sinais de alerta exigem atendimento imediato
A dengue grave pode se desenvolver a partir da evolução da doença e exige atendimento médico imediato. Entre os principais sinais de alerta estão dor abdominal intensa e contínua, vômitos persistentes, sangramentos pelo nariz ou gengivas, presença de sangue nas fezes ou no vômito, sonolência excessiva, tontura, dificuldade para respirar e sensação de desmaio. Ao identificar qualquer um desses sintomas, a orientação é procurar imediatamente uma unidade de saúde para avaliação e acompanhamento, pois o diagnóstico precoce e o tratamento adequado aumentam significativamente as chances de recuperação e reduzem o risco de complicações.
Referência em saúde pública
O HRAS é a maior unidade pública do governo do Pará. Referência no atendimento à mulher, criança e população indígena, promoveu mais de um milhão de atendimentos em 2025.
A estrutura conta com pronto-socorro pediátrico, ginecológico e obstétrico 24 horas, 360 leitos distribuídos entre emergência, cirurgia, internação clínica, UTI e Unidades de Cuidados Intermediários (UCIn), além de ser uma das principais maternidades do Estado, realizando mais de 5 mil partos anuais, e contar com um centro de terapia renal.
Texto: Ascom/HRAS
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